em Letsfair

Em uma definição racional, a confiança é um tipo de avaliação de risco da probabilidade de que algo dê certo, por exemplo um negócio. É o ato de confiar em uma análise se baseando em experiências anteriores. No entanto, não pode ser definida como algo racional e previsível. A confiança empodera as pessoas para se conectarem de forma segura com o desconhecido. Seres humanos são excepcionais em dar votos de confiança. Exemplo disso é o fato de colocarmos os dados de nosso cartão de crédito em algum site. Dependemos da confiança para que nossas vidas funcionem.

De acordo com Rachel Botsman, autoridade reconhecida mundialmente sobre o poder da colaboração e da confiança, a tecnologia está alterando de forma profunda o modelo de geração de confiança entre pessoas. Em sua apresentação no TED em 2016 [1], intitulada “Paramos de confiar em instituições e começamos a confiar em estranhos”, ela definiu:

“A tecnologia está criando novos mecanismos que nos permitem confiar em pessoas, empresas e ideias desconhecidas. E, ao mesmo tempo, a confiança em instituições, bancos, governos, e até em igrejas, está desmoronando.”

Airbnb, Uber, BlaBlaCar e Tinder são apenas alguns exemplos de mecanismos que permitem seus membros confiar em desconhecidos. Uma mudança está em andamento, a transição da “confiança institucional” para a “confiança distribuída”.

A pilha da confiança

A pesquisa de Rachel Botsman [1] demonstra como a tecnologia está transformando os vínculos sociais e a confiança entre as pessoas. Ao estudar centenas de redes e mercados, ela descobriu um padrão que as pessoas seguem, que ela chamou de “A escalada da pilha da confiança” (The Trust Stack).

Na primeira camada da Trust Stack, as pessoas têm de confiar que uma nova ideia é segura e vale a pena correr riscos. A próxima camada é confiar na plataforma, sistema ou empresa que está facilitando a troca. Por fim, a terceira camada refere-se a usar poucas informações para decidir se a outra parte no negócio é confiável.

Por exemplo, para usar BlaBlaCar, o consumidor precisa primeiro se convencer de que compartilhar uma viagem de carro, para reduzir gastos, e entrar em um carro com um estranho seja uma ideia possível. É óbvio que existem riscos. Em seguida é necessário confiar que o serviço não somente removerá as maçãs podres, mas também te ajudará a resolver os problemas, caso ocorram. E, finalmente, confiar que o motorista e os passageiros presentes sejam honestos. Esse é o processo de alguém passando pela Trust Stack.

Ao longo do tempo, as pessoas se abrirão às mudanças de comportamento. Quanto mais vivenciarem esse tipo de estrutura de confiança, maior será a disruptura nos sistemas existentes, e, eventualmente, podem ocorrer até mudanças na regulação da sociedade e política. Leis que diminuam riscos, que acrescentem segurança e talvez aumentem a penalidade para empresas fraudulentas, são alguns exemplos.

A confiança está evoluindo

No curso da história humana, a confiança evoluiu em apenas três importantes capítulos: local, institucional e a distribuída. Esta, na qual a sociedade se encontra no momento.

Quando as pessoas se concentram em ser confiáveis, elas demonstram integridade na maneira como se comportam. Fazem o que falam que irão fazer, inclusive com ética. É por isso que a confiança nasceu localmente. Quando se conhece uma nova pessoa dentro de uma comunidade, já existem previamente algumas informações sobre ela, se ela é realmente quem diz ser. Dessa maneira ocorre consistentemente mais pressão social para ela se comportar da maneira prevista.

Na atualidade, o mundo já se habituou com a confiança institucionalizada. Por não conhecer pessoalmente outras pessoas, consumidores acabam por colocar a confiança em organizações com sistemas de autoridade no modelo caixa-preta, coisas como contratos legais, legislações e seguros, e menos confiança diretamente nas pessoas físicas. A confiança se tornou institucional e intermediada.

Por outro lado, não se pode negar que, graças à tecnologia, o modo de confiar da sociedade está mudando. A confiança não é mais hierárquica, ela está sendo desagregada e invertida. Uma nova receita de confiança está surgindo e é distribuída entre as pessoas, mais inclusiva e responsável.

Hoje, muitas pessoas estão confortáveis entrando em carros dirigidos por estranhos. Com apenas um deslizar de dedos na tela, marcam encontros com outras pessoas que acham compatíveis. Compartilham as suas casas com pessoas que não conhecem. Esses são exemplos poderosos de como a tecnologia está estimulando a confiança entre as pessoas de maneiras e em uma escala que não era possível anteriormente. Isto é uma quebra de paradigma.

Essa mudança será ainda mais acelerada devido ao aparecimento da tecnologia blockchain, que acaba com a necessidade de intermediários de confiança. As implicações são imensas e serão vislumbradas pela plataforma Letsfair.

O custo da falta de confiança

Um ambiente econômico em que há ausência de confiança entre seus agentes, as relações se tornam mais complexas e, por consequência, os custos das transações aumentam, assim como os riscos e incertezas. Por vezes, tais custos tornam-se tão altos que não há incentivo nem mesmo para que as trocas econômicas se realizem. Em outras palavras, negócios não são concluídos.

Em “A Sociedade de Confiança” [2], principal obra do sociólogo, cientista político, diplomata, onze vezes ministro e membro da Academia Francesa, Alain Peyrefitte explica:

“A sociedade de desconfiança é uma sociedade temerosa, ganha-perde: uma sociedade na qual a vida em comum é um jogo cujo resultado é nulo, ou até negativo (se tu ganhas eu perco). […] A sociedade de confiança é uma sociedade em expansão, ganha-ganha (se tu ganhas, eu ganho); sociedade de solidariedade, de projeto comum, de abertura, de intercâmbio, de comunicação.”

Para Alain Peyrefitte a mola propulsora do desenvolvimento é a confiança, e em seu livro [2] explica como se deu o desenvolvimento do capitalismo a partir desta teoria. A confiança recíproca entre as pessoas, a confiança de uma sociedade em suas instituições, o cumprimento de regras não escritas de respeito mútuo e um comportamento capaz de minimizar a incerteza levam os indivíduos a saber o que esperar dos outros e das instituições, e são elementos vitais e decisivos para promover os negócios, os empreendimentos, os contratos, o progresso material e o desenvolvimento social.

Desconfiança é algo intangível e difícil de medir. Stephen Covey, no seu livro “The Speed of Trust” [3], exemplifica diversos efeitos da baixa cadeia de confiança. Uma delas é o custo da burocracia, apresentado como um dos sete tributos da baixa confiança, estimado em US$1,1 trilhão apenas nos EUA, representando mais de 10% do PIB.

Quanto menos confiança no ambiente econômico, mais se faz necessário advogados, juízes, contratos e até valores não monetários. Além de onerar os negócios com um altíssimo custo indireto, o clima de desconfiança geral provoca a perda de inúmeras oportunidades e investimentos. Quanto mais houver confiança, mais e melhores negócios surgem.

Blockchain na cadeia de confiança

Em resumo, a Blockchain é uma rede ponto a ponto (P2P) descentralizada, escalável e de grande potencial. Sua integridade é baseada em um mecanismo de consenso. Na prática resolve um dilema conhecido entre os cientistas da computação distribuída chamado de “Problema dos Generais Bizantinos”. Sua solução utiliza o conceito de prova de trabalho para permitir que pessoas que não confiam umas nas outras entrem em consenso por um objetivo comum, mesmo quando existam pessoas com objetivos opostos.

Blockchain tem o potencial de transformar a maneira como as pessoas e empresas cooperam. Por criar um sistema de consenso distribuído, o verdadeiro potencial disruptivo da blockchain está na cadeia de confiança, trazendo benefícios significativos para o dia a dia da sociedade. Ela possibilitou o surgimento de uma nova geração de aplicativos altamente escalável, robusta e inteligente para o registro e a troca de informações e registro de propriedade sobre: ativos físicos, virtuais, bens tangíveis e intangíveis. Graças aos principais conceitos de segurança criptográfica, consenso descentralizado e um livro razão público compartilhado, esta tecnologia pode mudar profundamente a maneira como é organizada as atividades econômicas de uma empresa, influências sociais, políticas e científicas.

Blockchain permite uma segunda geração de plataformas econômicas, em um ecossistema verdadeiramente descentralizado, tornando as pessoas proprietárias de sua própria identidade e reputação digital. Além de permitir o registro fidedigno de produtos, propriedade intelectual ou artística, bem como de todas suas transações.

Da mesma forma que a Internet abriu as portas à era da informação disponível a todos, a blockchain tende a revolucionar a confiança em escala global. Trazendo benefícios para a inclusão financeira e aceleração econômica, a democratização de oportunidades, e a inserção de um elemento que o mundo carece desesperadamente: a confiança uns nos outros.

Referências

[1] TED Talks — Rachel Botsman: We’ve stopped trusting institutions and started trusting strangers. Available at: (https://www.ted.com/talks/rachel_botsman_we_ve_stopped_trusting_institutions_and_started_trusting_strangers). Last access: May, 17, 2017

[2] Alain Peyrefitte (1995) La société de confiance. Essai sur les origines et la nature du développement Broché.

[3] Covey, Stephen R. and Merrill, Rebecca R. (2006) The Speed of Trust: The One Thing That Changes Everything.